top of page

O MODELO DA CARTOGRAFIA DA CONSCIÊNCIA DE STANISLAV GROF




Artigo publicado pelo Conselho de Psicologia de São Paulo (CRP-SP), parte da coleção Psicologia, Laicidade e as Relações com Religião e Espiritualidade


Ligia Splendore – Psicóloga, especialista em Transpessoal, CRP 28224-6, ALUBRAT, São Paulo-Brasil, ligiasplendore@gmail.com

Sean Blackwell – Sociólogo, Toronto-Canada, seaninsp@gmail.com


Ementa

Um aspecto comum a diversas práticas não hegemônicas é a visão de homem bio-psico-sócio-espiritual, no entanto, faz-se necessário mais estudos que fundamentem tal visão.


Apresentação

A cartografia da consciência proposta por Stanislav Grof traz uma epistemologia que sustenta a visão multidimensional do ser humano com base na fenomenologia dos estados holotrópicos de consciência. Pioneiro nos estudos dos estados não ordinários de consciência na década de 60 e com mais de 50 anos de experiência clínica, Grof defende que a dimensão espiritual é inerente ao ser humano e que só um novo modelo psicológico que integre essa perspectiva poderá fazer jus a real complexidade e a amplitude da subjetividade humana.


Texto Principal

O psiquiatra tcheco Stanislav Grof iniciou suas pesquisas dos estados não ordinários de consciência acompanhando milhares de pacientes em Praga e nos Estados Unidos em utilização do LSD (dietilamida do ácido lisérgico), uma das substâncias alucinógenas mais difundidas, indicada na época para tratamento psiquiátrico. Esses experimentos eram feitos em ambiente médico controlado com monitoramento das ondas cerebrais via eletroencefalograma (EEG) e estimulação com luzes estroboscópicas. Grof averiguou que, com a ingestão de LSD, os pacientes atingiam outros estados consciências tidos como anormais que ajudavam na melhora de sua saúde mental apresentando compreensões e insights que impactavam positivamente na sua recuperação. Com a proibição do uso de LSD, ele continuou seus estudos sobre estados de consciência desenvolvendo a técnica de Respiração Holotrópica, método de ampliação da consciência que combina respiração, música, trabalho corporal e mandala (Grof; Grof, 1990).


A partir desses estudos, Grof mudou sua perspectiva sobre psicologia e psiquiatria, unindo a elas outros estados de consciência, concebendo uma cartografia holística da consciência. Em 1968, juntamente com Abraham Maslow, Viktor Frankl, Antony Sutich, e James Fadiman, ajudou a fundar a Psicologia Transpessoal, cuja visão de homem é de um ser biológico, psicológico, social e espiritual. A espiritualidade é incluída como característica essencial ao ser humano, a essência que nos faz buscar sentido para a vida, que nos faz almejar transcender, acreditar e buscar o que está além do que podemos perceber através dos cinco sentidos (Maslow, 1968).


A Psicologia Transpessoal vê, portanto, a dimensão espiritual como intrínseca ao desenvolvimento humano e como aspecto inerente a consciência. A despeito da espiritualidade ser um tema de grande interesse, que tem atraído cada vez mais a atenção, existe grande resistência para que a dimensão sagrada do indivíduo seja considerada parte integrante da existência humana. Grof esclarece (Grof, 2007):

“As descrições das dimensões sagradas da realidade e a ênfase sobre a vida espiritual estão em conflito com o sistema de crenças que domina o mundo industrial. De acordo com a ciência acadêmica ocidental dominante, só a matéria existe realmente. A vida, a consciência e a inteligência são mais ou menos acidentais.”


Baseado nas pesquisas de Grof e outros autores, Kenneth Ring ampliou as denominações das vivências do inconsciente e elaborou uma cartografia da consciência, relacionando os diferentes conteúdos experienciais a uma ou mais regiões. Sabe-se que esses conteúdos se interpenetram mutuamente e não estão, de forma alguma, separados um do outro (Saldanha, 2008):


· Vigília - conteúdos usuais do cotidiano presentes na consciência;

· Pré-consciente - conteúdos facilmente acessados parcialmente ligados à vigília;

· Inconsciente Psicodinâmico - ou inconsciente Freudiano, experiências desde o nascimento até o momento de vida atual;

· Inconsciente Ontogenético - vivências intrauterinas incluindo experiências de morte e nascimento;

· Inconsciente Transindividual - experiências ancestrais, coletivas e arquetípicas;

· Inconsciente Filogenético - experiências além das formas humanas tanto orgânicas, como inorgânicas;

· Inconsciente Extraterreno - consciência para além do planeta, experiência de estar fora do corpo, percepção extra-sensorial, encontro com entidades espirituais e possessão de espíritos;

· Super consciente ou supra consciente - êxtase existencial, percepção ampla da realidade, apreensão intuitiva do fenômeno da unidade e da relação homem-cosmos;

· Vácuo - nirvana, estado de puro Ser, além do tempo-espaço onde a consciência funde-se a mente universal.


Grof ressalta que para abarcar todos esses estados, é imprescindível ampliar a dimensão da psique humana para além do nível biográfico. De acordo com Freud nosso histórico psicológico tem início após nosso nascimento, Grof acrescenta o domínio perinatal devido sua estreita relação com o trauma do nascimento biológico. Esse nível contem as lembranças que o feto viveu nos estágios consecutivos do parto e formam quatro grupos experienciais denominados por Grof de Matrizes Perinatais Básicas (Grof, 2007; 2010; 2012):


MPB I – universo amniótico de união primal com a mãe. Refere-se a lembranças do estado pré-natal avançado, pouco antes do parto. Durante episódios de existência embrionária sem distúrbios, Grof observou que as pessoas podem se sentir em espaços imensos sem fronteiras ou limites

levando a identificação com galáxias, espaço interestelar, cosmos ou com o mar, o oceano e animais aquáticos. Inversamente, as pessoas que revivem episódios de distúrbios intrauterinos ou experiências de “útero mau” podem ter sensação de ameaça sombria, visões de entidades demoníacas ou visões apocalípticas sangrentas do fim do mundo.


MPB II – engolfamento cósmico e sem saída ou inferno. Relacionada ao primeiro estágio do parto, o inicio do nascimento biológico, quando o útero se contrai, mas o colo ainda não se abriu. Tipicamente, os indivíduos sentem que estão sendo sugados para dentro de um

redemoinho ou sendo engolidos por feras míticas, é comum imagens de monstros arquetípicos devoradores e seres mitológicos em situação de dor e desesperança. Pode ocorrer identificação com prisioneiros em calabouços, campos de concentração, hospícios e situações de tortura. Esse estágio é uma das piores experiências que um ser humano pode ter, acarretando sensações de solidão, culpa e desesperança. Grof relaciona esse estado de escuridão e desespero abismal com a Noite Escura da Alma, um estágio de abertura espiritual que, apesar de ser difícil, pode ter um efeito libertador.


MPB III – a luta de morte-renascimento. Refere-se ao esforço para nascer depois que o colo do útero se dilata e acontece a propulsão pelo canal do parto. Experiência de esforço titânico envolvendo pressões e energias ou cenas sangrentas de violência e tortura. As pessoas podem ter imagens sexuais, às vezes, combinada com dor, agressão e medo, podem experimentar situações sadomasoquistas, estupros e situação de abuso sexual. Pode incluir elementos do inconsciente coletivo, figuras de heróis e deidades que representam a morte e renascimento. Temas sobre fogo também são associados a este estágio, podendo ser na forma ordinária e em uma variedade arquetípica de chamas purificadoras que poderiam assumir qualidade purgatória, destruindo tudo o que foi corrompido e preparando o indivíduo para o renascimento espiritual.


MPB IV – a experiência de morte-renascimento. Lembrança da chegada ao mundo, do nascimento em si, a expulsão final através do canal do parto. A experiência de “morrer” e a agonia durante o esforço para renascer refletem a dor e a ameaça vital sentidas durante o processo de nascimento biológico. Grof afirma que nós nascemos anatomicamente, mas não lidamos com este fato emocionalmente e a maneira como experienciamos a nós e ao mundo é impregnada por essa constante lembrança da vulnerabilidade, inadequação e fraqueza que vivemos no nascimento. Ao expurgar velhas programações, deixando-as emergir à consciência, elas se tornam irrelevantes e começam a morrer. Embora esse processo pareça amedrontador, é muito curativo e transformador. Após a experiência de total aniquilação, a pessoa é tomada por visões luminosas, de radiação e de beleza que são consideradas divinas, podendo se sentir inundado por emoções positivas com relação a si mesmo, aos outros, à natureza e à existência em geral.


Grof elucida que o conteúdo dessas matrizes não se limita às lembranças fetais e cada uma delas também representa uma abertura seletiva para as áreas do inconsciente coletivo histórico e arquetípico, que contem temas de qualidade experiencial semelhante. Portanto, além de ter um conteúdo próprio, as MPBs funcionam como princípios organizadores para as experiências de outros níveis do inconsciente (Grof, 2007, Grof 2012).


Outro nível dessa nova cartografia é o transpessoal, significando literalmente “além do pessoal”, onde a consciência transcende os limites corpo / ego e os limites comuns do tempo linear e do espaço tridimensional. Resultando em identificação experiencial com outras pessoas, grupos de pessoas e outras formas de vida e permitindo acesso a lembranças ancestrais, filogenéticas e cármicas (Grof, 2010).


Ao perceber que não existia na psiquiatria e psicologia uma nomenclatura específica diferenciando os estados não ordinários de consciência dos estados “ampliados” ou “expandidos” de consciência, Grof cunhou o nome de estados holotrópicos. De origem grega, holos quer dizer “todo” e trepein “movendo-se em direção a”, significa “voltado para a totalidade” ou “mover-se em direção ao todo” (Grof, 2010).


Para favorecer o acesso a esses estados, Grof criou a técnica da Respiração Holotrópica – uma combinação de respiração acelerada, música evocativa, trabalho corporal e desenhos de mandalas – cujo objetivo é ativar a psique e trazer para a consciência importantes materiais inconscientes tornando-os disponíveis para o trabalho terapêutico. Com essa técnica a pessoa tem acesso a domínios biográficos, perinatais e transpessoais do inconsciente, podendo desta forma transformá-los (Grof, 2010):


“Provavelmente a inovação mais interessante que surgiu a partir do estudo de estados holotrópicos seja a substituição das abordagens verbais por abordagens experienciais de auto exploração e psicoterapia, e a utilização da inteligência inata de cura da psique do próprio paciente em vez do terapeuta ou facilitador assumir o papel de orientador.”


Durante mais de 60 anos de trabalho e pesquisa, Grof constatou que apesar do crescimento e desenvolvimento espiritual ser uma característica inata aos seres humanos, esse processo pode se apresentar em forma de uma crise psicoespiritual. Para falar sobre essas experiências, Grof criou o termo de Emergência Espiritual referindo-se à evolução de uma pessoa para um modo de ser mais maduro, com maior liberdade de escolha pessoal e uma sensação de ligação profunda com as outras pessoas, com a natureza e com o cosmos. Se a experiência de emergência espiritual de uma pessoa for muito rápida e dramática, esse processo natural pode se tornar uma crise, apresentar sintomas psicóticos e ser confundido com um transtorno mental (Grof; Grof, 1990):


“O renascimento espiritual é tão normal para a vida humana quanto o nascimento biológico. Como o nascimento, a emergência espiritual tem sido acompanhada há séculos por muitas culturas como parte essencial da vida e, não obstante, tornou-se conhecida como uma doença na sociedade moderna. As experiências que ocorrem durante esse processo abrangem uma ampla gama de profundidade e intensidade, da mais amena até a mais dominadora e importuna”.


Grof identifica dois quadros: a Crise de Emergência Espiritual (Spiritual Emergency) - sugerindo uma crise, emergência no sentido de “urgência” e a Emergência Espiritual (Spiritual Emergence) - sugerindo uma oportunidade de ascensão a um novo nível de consciência, emergência no sentido de “elevação”. Verificam-se, consequentemente, diferentes padrões experienciais assim como graus de insanidade nessas experiências as quais requerem tratamentos diferenciados sendo o auxilio relativo à natureza, profundidade e intensidade do processo.


Um último aspecto que deve ser mencionado nas pesquisas de Grof diz respeito aos sistemas de experiência condensada – COEX, definidos por ele como memórias de carga emocional, de diferentes períodos de nossas vidas, que se assemelham pela qualidade da emoção ou sensação física que compartilham (Grof, 2007).


Esses sistemas são agregados de memórias, sejam elas traumáticas ou não, que ficam guardadas no inconsciente em forma de complexas constelações dinâmicas, influenciando a forma pela qual percebemos, sentimos e agimos com relação a nós mesmos, ao outro e ao mundo. Essas lembranças podem estar relacionadas a diversas fases da vida pré-natal e pós-natal, mas as raízes mais profundas do sistema COEX se estendem às diversas matrizes transpessoais, sejam elas: ancestrais, cármicas, raciais, filogenéticas e arquetípicas. Durante um estado holotrópico de consciência, o sistema COEX ativado determina o conteúdo da experiência, o qual pode ser trabalhado levando a uma mudança de um COEX negativo formado por lembranças traumáticas para um positivo associadas a lembranças de emoções agradáveis. (Grof, 2010).


Conclusão

Grof reconhece que as experiências transpessoais possuem muitas características estranhas que abalam os pressupostos metafísicos fundamentais do paradigma newtoniano-cartesiano e da visão do mundo científico materialista. Completa dizendo que somente pesquisadores, que estudaram e / ou experienciaram pessoalmente esses fenômenos fascinantes, compreendem que as tentativas da ciência tradicional de rejeitá-los como sendo produtos irrelevantes da fantasia e da imaginação humana ou alucinações são ingênuas e inadequadas. E conclui afirmando que (Grof 2010):


“Para levarmos em conta todos os fenômenos apresentados nesses estados, devemos reavaliar radicalmente nossa compreensão das dimensões da psique humana.”


Referências:

Grof, C.; Grof, S. Emergência Espiritual: Crise e Transformação Espiritual. São Paulo, Editora Cultrix, 1989.

________ A Tempestuosa Busca do Ser: Um Guia para o Crescimento Pessoal através da Crise de Transformação. São Paulo, Editora Cultrix, 1990.

Grof, S. Psicologia do Futuro: Lições das Pesquisas Modernas de Consciência. Brasil, Heresis Transpessoal, 2007.

Grof, C.; Grof, S. Respiração Holotrópica: Uma nova abordagem de Auto Exploração e Terapia. Rio de Janeiro, Capivara editora, 2010.

Grof, S. Cura Profunda: A perspectiva Holotrópica. Rio de Janeiro, Capivara editora, 2012.

Maslow, A. H. Toward a Psychology of Being. Nova York: Van Nostrand Company, 1968.

Saldanha, V. Psicologia Transpessoal: Abordagem Integrativa – Um Conhecimento Emergente em Psicologia da Consciência. Ijuí, Rio Grande do Sul, Editora Unijuí, 2008.

Tabone, M. A Psicologia Transpessoal: Introdução à nova visão da Consciência em Psicologia e Educação. São Paulo, Editora Cultrix, 1998.

Walsh, R., Vaughn, F. Caminhos Além Do Ego: Uma Visão Transpessoal. São Paulo, Editora Cultrix, 1993.

Comentarios


Archive
Follow Us
  • Facebook Basic Square
bottom of page